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Inteligência no combate às desigualdades de gênero, raça e sexualidade no Turismo de SP

Um dos nossos clientes mais importantes é a Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo (SETUR-SP). Em nosso contrato iniciado em dezembro de 2019, entre tantos serviços, um dos maiores desafios é a elaboração de um Plano de Desenvolvimento do Turismo Paulista. Assim, este plano deve ser pensado de maneira especial, diferenciando-se de um planejamento puramente organizacional, como por exemplo para se modernizar internamente a SETUR-SP diminuindo a fricção burocrática ou otimizando o organograma. O Plano de Desenvolvimento do Turismo Paulista é um produto que diz respeito ao Turismo (Sim, com T maiúsculo) em todo o estado de São Paulo, devendo ser pensado a partir da ótica do Desenvolvimento e não algo puramente administrativo.


Neste processo de planejar, participam, em conjunto, uma equipe de consultores especializados nas teorias de Carlos Matus de Ciências e Técnicas de Governo, servidores da SETUR-SP e representantes do trade turístico, para que se desenvolva o Plano. Além deste pequeno grupo, mobilizamos cinco oficinas com por volta de 300 representantes do Turismo Paulista coletando informações e ideias para alimentar o Plano.


O trabalho de planejamento foi iniciado ainda em janeiro, portanto em época pré-pandemia. Obviamente a crise desencadeada pelo COVID-19 reorientou todo nosso trabalho, fazendo-nos abandonar diversas premissas previamente estabelecidas. O Turismo, como já é possível observar nos dados disponíveis, é uma das dimensões econômicas mais impactadas pela pandemia e provavelmente será umas das últimas dimensões a se recuperar. Felizmente, a metodologia que colocamos em prática nos permite flexibilidade e agilidade o suficiente para adaptarmos o Plano a tempo.


A partir da profunda alteração de cenário que tivemos que lidar, foi solicitado pelo líder do desenvolvimento do Plano que nós, enquanto consultoria, fizéssemos uma pesquisa que diagnosticasse o Turismo Paulista pré-pandemia e os efeitos do "coronacrise" na dimensão econômica do Turismo.


O estudo na íntegra ainda não está pronto para ser publicado, mas trago aqui um dado que acabou por mudar qualitativamente o Plano de Turismo, colocando-o em consonância com as lutas por direitos das minorias, quais sejam mulheres, negros e comunidade LGBTQI+.


Para se elaborar o estudo, foi consultado dados do Extrator do IPEA (http://extrator.ipea.gov.br/) que permite acessar uma variedade de dados abertos sobre o turismo no Brasil todo. Um dos recortes possíveis é a análise de remuneração por gênero e outra é a remuneração por formação dos trabalhadores e trabalhadoras das por Atividades Correlata do Turismo (ACTs), quais sejam: Alojamento, Alimentação, Transporte Terrestre, Transporte Aquaviário, Transporte Aéreo, Aluguel de Transportes, Agência de Viagem e Cultura e Lazer.


Apenas ao analisar os dados de remuneração por gênero já foi possível identificar uma grande desigualdade de remuneração das ACTs, com as mulheres ganhando em média, entre 2013 e 2017, 71,62% do que os homens ganham. É triste notar que as mulheres com ensino superior, em média, recebem menos ainda do que os homens de mesma formação, recebendo 69,48% do que eles recebem. Ao cruzar os dados, ainda foi possível identificar as ACTs com maior e menor grau de desigualdade.


Tabela 1 - Média do percentual de remuneração feminina em relação à remuneração masculina, entre 2013 e 2017, por ACT e por formação.

Fonte: Elaboração Própria a partir de dados do IPEA


A Tabela 1 mostra a desigualdade de gênero expressa nas remunerações femininas, por ACT. A tabela esta formatada de maneira a identificar, por formação, quais são as ACTs com maiores (tons avermelhados) e menores (tons esverdeados) níveis de desigualdade. Vale notar a triste realidade de que nenhuma ACT tem remuneração próxima dos 100%, ou seja, com as mulheres recebendo próximo dos 100% em média do que o homem recebe para a mesma formação. Assim, Transporte Aéreo e Transporte Terrestre se destacam negativamente, enquanto Alimentação e Agências de Viagens têm resultados "menos piores".


A partir de tal análise, percebi que poderia levar uma proposta de estratégia específica para mulheres para o Plano de Desenvolvimento do Turismo Paulista. Apesar de nas oficinas ter aparecido brevemente este assunto, no desenho do Plano ainda não havia nada de concreto, destacando as minorias. Entretanto, pensei que, se não havia nada para mulheres, também não havia nada para negros - apesar de todas as movimentações de movimentos antirracistas nas últimas semanas - e nada tampouco para a comunidade LGBTQI+ - apesar de estarmos, à época, no mês do orgulho LGBTQI+.


A proposta, portanto, cresceu, não ficando apenas restrito ao gênero. Dito e feito. Levei os dados e análise para a discussão de grupo, propondo que colocássemos expressamente a equidade de gênero, raça e sexualidade para o Plano de Desenvolvimento do Turismo Paulista. Foi bem recebido pelo grupo.


Por questões contratuais ainda não posso revelar ainda como ficará esta questão no Plano. Assim que o Plano for lançado comentarei por aqui. Mas posso dizer que foi muito gratificante combinar inteligência e planejamento para ativamente combater as desigualdades de gênero, raça e sexualidade no Turismo do estado de São Paulo.


Continuemos o trabalho!

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